22 de março de 2009

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Viver sempre também cansa

"Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.
"E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."


José Gomes Ferreira

17 de março de 2009

Um caminho errado porquê?

Sabes quando estás perante dois caminhos e tens de escolher? É agora, não podes voltar atrás. A decisão tem de ser tomada. Não adianta adiar o inadiável.
À tua frente dois caminhos e apenas uma opção. Sabes qual o certo qual o errado. Especulas as consequências de cada um. Sabes o que te espera, sabes para onde irás em cada um.
O mais racional e óbvio estava à vista: a escola do melhor caminho. Mas decides ser contrária ao rumo de vida desejável e optas pelo mau caminho. Tornas-te desleal às escolhas consideradas como humanas. Segues em frente sem olhar para trás. A interrogação nasce e cresce em ti a cada passo, a cada caminhar sobre as brasas: Porquê este caminho? A resposta morre a cada suspiro, a cada movimento.
Julgas-te detentora do futuro. Capaz de mudar o rumo do caminho por onde segues. Vais de mãos dadas com a falsidade mas não a reconheces porque se esconde de ti e julgas capaz de a desmacarar e detentora de a transformar na mais pura das verdades. Sonhas com isso ao longo do teu caminhar. Mas o sonho é destruído a cada olhar. O arrependimento começa a nascer. As vozes voltam para te julgar. Observas o abismo ao fundo do caminho. Mas não haverá uma ponte?